Qualidade de vida na carreira pública: o que faz você feliz?

Estabilidade, salários acima da média do mercado, perspectivas reais de crescimento profissional. Esses são alguns dos valores inerentes à carreira pública, que fazem com que mais de 12 milhões de brasileiros façam concursos a cada ano. Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas, será que o simples ingresso no serviço público é garantia de realização profissional? Quais outros fatores pesam para que a equação do índice de satisfação pessoal com o próprio trabalho tenha um resultado, de fato, positivo? É para discutir esta questão que será realizado o III Simpósio sobre Qualidade de Vida no Trabalho da Área Pública. O evento fará parte da grade do XIII Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida, que será realizado de 29 de setembro a 2 de outubro, em São Paulo (saiba maisAQUI).

O simpósio, que acontecerá nos dias 1º e 2 de outubro, terá a coordenação do professor José Arimatés de Oliveira, doutor em Administração e pesquisador em Gestão de Pessoas da Universidade Federal de Rio Grande do Norte. O acadêmico concedeu esta entrevista à FOLHA DIRIGIDA, na qual aproveitou para questionar preconceitos que cercam a esfera pública. "Os gestores, por vezes, são descuidados. É preciso admitir que o servidor público é um ser humano que, igualmente ao trabalhador privado, precisa ser estimulado, ter perspectiva de carreira, ter um ambiente funcional de excelente qualidade. O cidadão brasileiro aprecia quando recebe um bom atendimento, seja no serviço municipal, estadual ou federal. Mas, para que isso ocorra, a qualidade de vida de quem trabalha nesses postos precisa ser preservada", defende ele, para quem a má qualidade dos serviços públicos no Brasil deve-se, sobretudo, à falta de políticas eficazes de gestão, voltadas para a motivação e qualificação dos quadros do Estado. Leia a entrevista:

 

FOLHA DIRIGIDA - Falando de qualidade de vida no ambiente de trabalho na esfera pública: quais são os principais desafios experimentados, hoje, pelos servidores?

 

José Arimatés - Penso que os principais desafios dos servidores públicos na área de qualidade de vida no trabalho sejam a descontinuidade dos processos de gestão, em que cada mudança de gestores exige novas lutas destes profissionais em busca da Qualidade de Vida no Trabalho (QVT); e a baixa conscientização ou falta de conhecimento de muitos gestores que os levam a alocar poucos recursos financeiros para essa área. Há ainda a manutenção de uma cultura equivocada e antiquada sobre o significado do serviço público, por parte de alguns gestores. Como é possível observar, esses desafios são circulares e são resultantes de falhas de gerenciamento. Na área de Qualidade de Vida, é muito importante que as políticas geradas sejam políticas de Estado em vez de políticas de governo. Essas são fáceis de serem esquecidas - enquanto aquelas são fixas e feitas para durar, transmitindo segurança ao trabalhador.


Apesar desses problemas, é correto afirmar que o ambiente de trabalho no setor público, em geral, é mais ´saudável´ do que na iniciativa privada?

 

Em termos gerais, não se pode afirmar isto, pois em ambas as esferas há extremos quanto à QVT. Se no serviço público há mais indícios de segurança quanto ao emprego, menos sofrimento no trabalho (por exemplo, por não haver uma cultura de busca desenfreada por metas a serem atingidas), também há histórico de pouco incentivo ao desenvolvimento pessoal e profissional, assim como de não aproveitamento de competências profissionais dos servidores. Por isto, não generalizo, pois os mesmos fenômenos podem ocorrer nas duas esferas, dependendo bastante do estilo de liderança vigente nas mesmas e de outras contingências gerenciais e pessoais.

 

O que explica, então, o interesse de milhões de pessoas pela esfera pública? O mercado de concursos, por exemplo, revela-se cada vez mais aquecido...

 

Em geral as pessoas procuram trabalhar no serviço público com a expectativa de salários melhores do que na iniciativa privada - o que é realidade atualmente. Também pensam na estabilidade no emprego, e na maior possibilidade de crescimento pessoal e profissional, assim como acreditam que no serviço público o ambiente de trabalho seja mais saudável, livre de estresse... Há outros fatores que colaboram para a corrida de milhões de pessoas para os concursos, relacionados à dificuldade de conseguir emprego na iniciativa privada e até mesmo à expectativa de conquistar um ´emprego público´, pensamento, infelizmente, ainda reinante em algumas pessoas, que parecem não compreender o significado do termo ´servidor´. Apesar disso, é notório o desenvolvimento e a modernização dos processos, e da gestão pública como um todo. Isso ajuda a entender o maior interesse pelos concursos. Além, é claro, do fato de eles serem, por prerrogativa constitucional, a única maneira de entrada efetiva para o serviço público. Não há dúvidas de que esse mercado estará cada vez mais aquecido.

 

No release que trata de sua palestra, o sr. afirma: “Vivemos um enfrentamento para a quebra de paradigmas e preconceitos, especialmente quando falamos de programas de qualidade no trabalho na área pública”. Quais, afinal, são esses paradigmas e preconceitos a serem quebrados?

 

Os paradigmas e preconceitos referidos são relacionados, por exemplo, à ineficiência do serviço público, à  falta de capacitação dos servidores públicos e à sua duvidosa conduta no trato com os recursos públicos. Os modelos de gestão adotados recentemente em todos os níveis da administração pública objetivam a anulação desses preconceitos - que lentamente vão sendo desfeitos. Talvez uma das provas do progresso nessa luta seja justamente a alta procura de trabalho no serviço público, observada na quantidade de participantes dos concursos. Uma das formas de enfrentamento desses fenômenos pode ser a implantação de um modelo de gestão baseado em uma política de mobilização dos servidores em busca da qualificação contínua, tanto na área técnica quanto comportamental, incluindo aspectos éticos e organizacionais. Outra forma poderia ser a realização de estudos e análises técnicas por especialistas, em busca de processos mais eficientes e eficazes para o funcionamento do aparelho estatal. 

 

Qual é o peso do item ´satisfação´ para o pleno desempenho de uma função?

 

É uma variável muito importante, pois a satisfação é considerada um estado emocional resultante de uma  percepção do trabalhador com relação às expectativas que tem quanto ao trabalho e suas circunstâncias. Se essa percepção é positiva, há satisfação e ele terá condições de contribuir efetivamente para o desempenho de sua função, na esfera pública ou privada. 


Como evitar que a sonhada estabilidade - perseguida por milhares de candidatos em concursos - seja confundida com comodismo? Como manter o funcionalismo público motivado? Quais políticas podem ser desenvolvidas neste sentido?

 

A busca da estabilidade como algo motivador para o servidor público deve ser secundária, sob o risco de retê-lo no comodismo. Ao alcançá-la, por satisfazer à necessidade inicial, o servidor poderá não encontrar outro motivo para crescimento, se acomodar e baixar sua contribuição para o desenvolvimento da instituição. A motivação é um fenômeno intrínseco, que parte de dentro das pessoas, sendo gerada a partir de necessidades sentidas. Por isto, os gestores têm como missão formular políticas que levem os servidores a sentirem necessidades de crescimento, de melhor desempenho no trabalho, superar desafios e de ter mais qualidades para maior contribuição para o crescimento da instituição. Isso, automaticamente, traduz-se em ganho profissional, em melhor qualidade de vida. 


Os temas do Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida, e em especial sua palestra, deverão atrair o interesse de um grande número de gestores públicos. Como o sr. espera ajudá-los?

 

O Simpósio de Qualidade de Vida no Trabalho no Serviço Público, inserido no Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida deverá, realmente, atrair o interesse de gestores públicos brasileiros. O Simpósio poderá ajudá-los a compreender a necessidade de implantação de programas de qualidade de vida no trabalho em suas instituições, a entender a diferença de pontos de vista entre os gestores e servidores quando o assunto é a implantação desses programas. Igualmente, o Simpósio indicará aos gestores que há atividades preventivas necessárias para a eficácia dos programas de QVT, assim como há ações curativas que podem manter a motivação e a satisfação dos servidores em alta. 

 

Outro ponto citado em sua palestra é a constante perda de talentos no setor público, quando esses profissionais de destaques acabam atraídos por melhores ofertas de salários e condições de trabalho feitas por empresas privadas. Qual o prejuízo desse processo para o Estado brasileiro? Como combatê-lo?  

 

Este é um grande desafio para as instituições públicas, de difícil resolução. É muito comum ocorrer essa situação, na qual a empresa recebe um profissional altamente capacitado, no qual nada investiu, embora seu compromisso salarial seja mais alto. Nesses casos, a poteriori, não há muito o que fazer, pois deve prevalecer a satisfação do cidadão, que procura galgar melhores condições de vida. Preventivamente, um bom plano de carreira pode ser idealizado e implantado, dependendo do nível de importância estratégica para o serviço público, das funções em que os talentos estão sendo perdidos. Algumas instituições podem, realmente, funcionar como supridoras de talentos para o desenvolvimento da sociedade. Assim o serviço público estaria cumprindo seu papel de responsabilidade social.

 

O sr. também afirma que a implantação de um programa de qualidade de vida em qualquer que seja a organização, pública ou privada, não exige altos investimentos financeiros. Em linhas gerais, como se dá esse processo? E quais ganhos podem ser logo percebidos?

 

Realmente, a implantação de um programa de QVT, em qualquer que seja a organização, não implica em altos custos. Dependendo dos objetivos e das condições orçamentárias e financeiras da instituição ou do órgão, os gestores dos programas podem usar a criatividade e inserir atividades sociais e de envolvimento humano, cuidando das pessoas em suas dimensões biológica, psicológica, sociológica ou organizacional. Geralmente, algumas ações nessas esferas têm custos financeiros baixos, pois não necessitam de mais equipamentos físicos e materiais do que os já existentes. Os investimentos que mais oneram os orçamentos dos programas de qualidade de vida são principalmente equipamentos para as atividades físicas, construções de salas e equipamentos específicos, além das contratações de pessoal especializado. Como as atividades de um programa de QVT são muito diversificadas, o gestor pode implantar inicialmente os passos mais simples e, com o avanço do programa, depois ampliar essa ação.

 

O que é a Síndrome de Burnout?

 

Estar num trabalho do qual não se gosta, motivado apenas pelo salário, diminui a qualidade das relações profissionais e pessoais. A pessoa que não se completa naquilo que faz acaba contaminando sua vida pessoal e sendo infeliz. O termo ´burnout´ vem do inglês e quer dizer ´estar queimado ou queimando´. O principal resultado dessa síndrome é o esgotamento total do indivíduo. Ela acomete, em sua maioria, profissionais que lidam com pessoas, máquinas e carga excessiva de trabalho. É diferente do estresse, quando a pessoa não tem muita consciência do que está acontecendo com seu organismo e coloca a culpa no chefe ou no colega. Na síndrome, os sintomas são mais fortes. Ela leva à prostração e o doente pede socorro. É possível evitá-la, tomando alguns cuidados, como aprender a reconhecer os seus próprios limites, para saber até onde e quando você pode ficar exposto a uma determinada situação. O servidor deve-se buscar atualizar seus conhecimentos, equilibrar a vida pessoal com a profissional e aprender, por vezes, a dizer não. É comum aceitarmos muito mais tarefas do que realmente temos tempo para resolvê-las...
 

Como, diante da falta de uma política oficial de qualidade de vida, um profissional pode promover mudanças em seu cotidiano, em busca de melhor QVT?

 

Como é sabido, a qualidade é algo valorativo. Assim, para cada indivíduo este conceito é definido de maneira diferente, dependendo de seus objetivos de vida e principalmente de seus valores. Cada servidor pode ser um agente de QVT na organização, mesmo que não seja integrante de qualquer ´comitê de qualidade´. Pequenas ações individuais de caráter psicológico e sociológico, como relacionamento interpessoal agradável, promoção do bom humor no ambiente de trabalho, espírito colaborativo para com os companheiros e cuidados com o seu micro ambiente físico, são mudanças que podem ser introduzidas de forma leve, sem traumas. Se pensarmos de forma um pouco mais ampla, o profissional poderá melhorar sua qualidade de vida e a dos seus companheiros através de ações de empreendedorismo interno, fazendo melhor seu ambiente do ponto de vista físico ou através da proposição de ideias que levem à melhoria da execução das tarefas. Também podemos considerar que ter cuidados com a saúde do corpo é uma postura vital para melhorar a QVT dos servidores.

 

Por fim, uma curiosidade absolutamente pessoal: o que mais o faz feliz ou desagrada em seu trabalho?

 

Para mim, pessoalmente, me dá qualidade de vida ter uma profissão sem rotina nas atividades. Sempre há algo novo no trabalho de um profissional do magistério, em qualquer situação de relação docente/aluno. Não posso deixar de declarar que o companheirismo e a amizade dos colegas é algo que me faz feliz. Por outro lado, desagrada-me quando me deparo com um ambiente de trabalho sem os equipamentos necessários para o exercício das atividades a serem executadas.

 

Fonte: Folha Dirigida