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INFLUÊNCIA DA ESPIRITUALIDADE NO PROCESSO DE LIDERANÇA E QUALIDADE DE VIDA NAS ORGANIZAÇÕES

Graciete Santos Cavalcanti

A qualidade de vida no ambiente de trabalho, é considerada essencial em todos os seus aspectos, propiciando um bem-estar físico, psíquico, social e espiritual. A qualidade de vida transcende as condições externas e materiais da vida, ela diz respeito principalmente ao amplo significado interno de satisfação e bem-estar, que é percebida através da harmonia e equilíbrio entre o corpo, mente e espírito, priorizando o aspecto espiritual.

A espiritualidade é um aspecto fundamental na qualidade de vida, no que tange aos valores éticos e morais. Ao refletir sobre espiritualidade nas organizações, no que se refere no perfil de uma liderança corporativa, vêm-nos à mente, que está havendo uma mudança de paradigma, de uma liderança autocrática para uma liderança democrática, dando mais ênfase aos valores essenciais, onde se releva  o bem-estar e a integridade do líder, que alinha valores de conduta, através do auto conhecimento e transformação.

A liderança é sempre um fator determinante para o sucesso de uma empresa, os líderes são cruciais na busca de maior produtividade dentro das organizações.Um líder deve ser capaz de proporcionar condições adequadas para o total desempenho das habilidades de seus colaboradores, tornando o trabalho saudável, motivador e não uma ação que gere dor e sofrimento.

Estudar e escrever sobre espiritualidade  são tarefas difíceis, pelas várias facetas que o tema possui, pela inquietação que provoca, uma vez que nenhum ser humano passa ileso à experiência da espiritualidade. Vivenciada pelas mais diversas formas, inspira medo, admiração, entusiasmo, opressão, terror, conforto ou paz. Envolvidos pela sua transcedência e vivendo em uma sociedade norteada pela ciência e pelo pensamento lógico, freqüentemente o ser humano encontra-se em uma dicotomia entre o material e o espiritual, o que provoca as mais diferentes reações. No entanto, a espiritualidade é parte integrante da formção do homem e por isso, não pode ser desprezada numa análise ampla da concepção do mesmo.

A liderança baseada nos preceitos da espiritualidade conduz para um estado onde o ser humano, encontra-se em conexão com sua consciência maior, desenvolvendo seus valores essenciais, resultando em bem-estar e qualidade de vida do líder e dos seus liderados.

A escolha deste tema baseia-se na crescente necessidade sentida de se pesquisar e demonstrar mais intensamente sobre a importância do trabalho do terapeuta transpessoal dentro das organizações. A terapia transpessoal proporciona ao indivíduo, no trabalho e em sua vida pessoal, o equilíbrio emocional e espiritual por intermédio da conscientização e transcendência de suas máscaras comportamentais, tendo por finalidade a conexão com a essência, que é a consciência maior.

Os conceitos de espiritualidade são vários. O filósofo Christian de Barchifontaine  define espiritualidade como busca de um sentido da vida. Os caminhos da espiritualidade vão além das religiões, passando pela filosofia, a ética, a moral e a ideologia. O ser humano só consegue tomar consciência da espiritualidade quando verdadeiramente conhece seus valores essenciais, ou seja, tem conhecimento de si próprio. De acordo com  Anselm Grüm, a espiritualidade não é medida, é sentida, percebida pelo comportamento das pessoas, atitudes éticas, com valores essenciais.

O especialista norte-americano Brian Luke Seaward, no livro “Wellness” (Campus, 2007), lembra, que espiritualidade é um alimento para alma assim como os elementos naturais são para o corpo. Ele relata que as virtudes espirituais envolvem: paciência, perdão, otimismo, coragem e fé. Esses seriam os músculos da alma humana.

Como se pode observar nos conceitos, a espiritualidade caracteriza-se por possuir elementos comuns: o amor, o respeito à vida, o livre arbítrio, a esperança, a fé, a ética, a integração, a verdade, a bondade, a igualdade,  e a liberdade. Embora existam muitas interpretações acerca do significado da palavra espiritual, que assumiu como principal conotação o sentido de religiosidade. Portanto, o termo espiritualidade aqui empregado, refere-se a uma condição da natureza humana, no sentido de ser uma dimensão que transcende as limitações de uma estrutura física e mental, cuja veracidade está cada vez mais, sendo reconhecida por quase todas as linhas do conhecimento humano. A espiritualidade é uma coisa e religião é outra. Ser alguém espiritual não significa exibir qualquer religião.

A espirtualidade está entrando no mundo dos negócios, pela mudança de paradígmas, saindo do sistema tradicional, em que as organizações se baseavam em critérios hierárquicos. Principalmente as organizações que eram influenciadas pelo resultado direto da força exercida de uma pessoa sobre a outra, ou seja, da força do poder e do controle. Essa forma de poder e controle, impedem o ser humano de se tornar um ser espiritual.

Pitta, 2007, lembra que que nossa consciência como indivíduo foi enormemente influenciada, na história da civilização ocidental, pelos aspectos racionais e materialistas e por uma visão fragmentada da realidade, em decorrência do pensamento filosófico adotado após os séculos XVI e XVII, em que o mundo e o próprio homem passaram a ser vistos como máquina, formada por componentes que funcionam por meio de leis fixas e naturais. Apesar dos inúmeros esforços das empresas em atender as pessoas, o fato é que elas não possuem conhecimento suficiente para que isso seja possível.

É mais fácil pensarem em tecnologias e burocracias do que no indivíduo, que continua sendo um ilustre “esquecido” pelo espaço organizacional. Nos discursos de presidentess, diretores e empresários, vemos nas festas de final de ano e em outras comemorações, aquelas referências aos funcionários como sendo os “ativos mais importantes” da empresa. É interessante notar como na linguagem administrativa o discurso encontra-se muito distante da realidade. Na prática, as pessoas nas organizações são classificadas como despesas ou custos e são, via de regra, alvo das demissões nos primeiros sinais de crise financeira.

Devemos considerar que as organizações são sistemas vivos de seres humanos, que não podem ignorar a integridade pessoal. Ao se trabalhar com conceitos espirituais nas empresas, estamos falando em elevar os níveis de consciência sem perder de vista os resultados materiais. Quem consegue se auto disciplinar para essa prática, percebe um poderoso efeito positivo no sentido de uma maior certeza interior na condução da vida. A liderança baseada na espiritualidade é uma liderança baseada em preceitos éticos e morais elevados.
 
Debashis Chatterjee, sugere que liderança não é conseqüência de uma personalidade estável, mas a  evolução de uma pessoa íntegra. Porém, líderes que usam máscaras (ego), não podem inspiar a si mesmo, ou a outros. Um bom líder é aquele que renuncia ao “ego” (poder e posse); sua fonte não está relacionada com luxúria, raiva, apego, egoísmo e autoritarismo, não há insinceridade ou hipócrisia em seus atos. Em resumo é uma pessoa correta e transparente em palavras e conduta. Quando estamos no ego, achamos que cada um de nós é uma entidade distinta, separada de todas as outras com quem vivemos e trabalhamos. Quando estamos na nossa “essência”, sabemos que todos estamos intrincadamente ligados numa rede de relacionamentos que torna impossível para nós dar até um único passo sem alterar  todo o conjunto.(Galley, 1996).

Chatterjee,1998, diz que  muitos de nossos problemas são criados por nós mesmos. A origem está no fato de que confundimos nossa auto-imagem (ego) com nosso verdadeiro Eu.O ego rejeita o conhecimento espiritual e a intuição. De acordo com Seaward, A maior barreira no caminho espiritual é o ego.

Felizmente ou infelizmente, vivemos em função do ego, direcionamos a vida para protegê-lo seja em quaisquer circunstância (pessoal ou profissional), que quando protegido temos a sensação ilusória de tranqüilidade, segurança e até mesmo de felicidade.Quando estamos apegados ao ego, as conseqüências são viver uma parte da vida em função do TER (altos cargos, belas casas e belos carros), o que dá  a sensação de um bem-estar, poder, etc., mas isso, também muitas vezes nos faz distanciar dos valores espirituais (essência do ser). O Ego nos faz sentir diferenciados uns dos outros, inclusive dando-nos a sensação de superioridade, de arrogância, nos torna autoritários e prepotentes, desvalorizando o outro, preocupando mais com a satisfação pessoal e não com o crescimento da empresa.

Quando o ego sente-se ameaçado por algum fator externo, como: perda de um cargo, perda financeira, uma separação( quando uma pessoa tem controle sobre a outra), há um grande desequlíbrio emocional, surge medo, ódio, etc. No momento que o ego se encontra nesse estado , ameaçado, é onde se conhece o verdadeiro líder. No entanto quando a pessoa  lidera pelo ego,  não acredita em si e nem  na sua capacidade essencial, ou seja, na sua espiritualidade, exerce na empresa, uma liderança em que a criatividade deixa muito a desejar.

O líder por não saber lidar com a espiritualidade sente dificuldade em reconhecer seus potenciais e talentos. O talento vem da alma, todos nós temos dons, quando não desnvolvemos nossos talentos, não sentimos motivação, não fazemos o trabalho com dedicação e amor, somos infelizes: felicidade é condição de produtividade e está muito ligada com qualidade de vida.

Sabemos que a  qualidade de vida é atingida através da harmonia integração e equilíbrio entre corpo, mente, espirito e emoção, onde o todo é maior que a soma das partes, como nos lembra Brian Luke Seaward. A saúde  do espírito humano também implica um movimento que deixa o medo  a raiva para trás e migra no sentido do amor incondicional.

A espiritualidade é equlíbrio. A qualidade de vida abrange aspecto espiritual. E a espiritualidade é um aspecto fundamental na qualidade de vida.

A psicologia transpessoal é uma forma de tratamento terapêutico, no qual o ser humano é analisado através de uma visão que vai além do ego, isto é, além dos aspectos pessoais do ser, abordando-se os aspectos transcendentes, profundos da personalidade humana, com objetivo de se trabalhar as causas a que originam os conflitos psicológicos do indivíduo.Para a psicologia transpessoal os conflitos psicológicos são originados através de uma forma egóica de se viver,está baseada em três pilares, auto conhecimento, conscientização e transformação.

O autoconhecimento é a percepção consciente dos egos e da essência. Muitas vezes o ser humano tem dificuldade de acreditar e aceitar sua essência; acredita ser algo inatingível, como se não fosse merecedor desse contato, mas só não acontece, pelo fato de estar muito apegado ao ego.Como vimos o ego é a grande barreira do caminho espiritual.Quando o ser humano está apegado ao ego,  por estar desconectado de sua essência, muitas vezes  tem resistência aos programas de saúde, proposto na qualidade de vida, como : atividades físicas e cuidados com a saúde, muitas vezes tem vícios (fuma, bebe, gula), é apático,  preguiçoso, invejoso, inseguro, desmotivado e estressado.   Quando o ser humano transcende o ego e renasce na essência, entra em harmonia com o todo (corpo, mente e espírito),  tem saúde, está em posse de um sentimento de bem-estar. Dentro desse referencial, as pessoas são felizes tanto na vida pessoal e profissional e conseqüentemente tem uma boa qualidade de vida.Dentro desse contexto, não há resistência para aderir qualquer programa e ação de promoção de saúde.

O ser humano conectado com sua essência, assume seus verdadeiros valores essenciais como:  entusiasmo, determinação, segurança, honestidade, persistência, autenticidade é um ser ético. Ser autêntico, é reconhecer esta verdade interna. Experienciar a transcendência do ego, não é nada filosófico, é sentir e viver a sua experiência.


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